Entrevista: Grão-Mestre Jorge Haddad toma posse e dará continuidade ao processo de modernização da Glesp

Reeleito com 5.884 votos, o Grão-Mestre Jorge Haddad terá um mandato com foco na modernização, sem abandonar a ritualística e a tradição da Ordem

Foram quatro meses afastado do cargo, viajando pelo estado de São Paulo em campanha para a reeleição. Após o Tribunal Eleitoral Maçônico (TEM) ratificar o resultado do pleito realizado no dia 8 de maio, que concedeu 5.884 votos (50,48% dos votos válidos) para a Chapa 1, o irmão Jorge Anysio Haddad voltou a ser Grão-Mestre da Glesp.

No dia 28 de junho, ocorreu a Cerimônia de Instalação e Posse dos Grandes Oficiais para a gestão 2025-2028, dando a largada para o novo mandato do Sereníssimo Grão-Mestre Jorge Haddad, que seguirá com o processo de modernização da Glesp, com foco no futuro da instituição, sem abandonar a tradição e os valores basilares da Ordem.

Na entrevista a seguir, o principal dignitário da Glesp relata como foi a campanha eleitoral, os objetivos que vislumbra para a instituição e os novos projetos que serão implementados nos próximos três anos de sua administração.

A Verdade em Destaque: O senhor renunciou ao cargo para buscar a reeleição ao Grão-Mestrado. Qual a sensação de fazer novamente uma campanha eleitoral? A experiência na eleição anterior ajudou ou essa foi muito diferente?
Grão-Mestre: Essa campanha foi bem diferente da primeira, em 2022. Naquela oportunidade, ocorreu um comportamento mais ético por parte do nosso concorrente, o que não ocorreu nesta eleição de 2025, quando fui duramente atacado pela equipe de um dos candidatos. Porém, os irmãos da jurisdição se impressionaram e me parabenizaram pela minha ponderação, pelo meu silêncio diante das acusações infundadas e pela minha sobriedade. Tínhamos um projeto bem elaborado, apresentamos nossa plataforma de governo somente na campanha, por questões estratégicas, porque os projetos dos concorrentes eram praticamente cópias daquilo que já tínhamos apresentado em 2022.

AVD: Durante a campanha, quantas lojas foram visitadas?
GM: Não tenho como dimensionar a quantidade de lojas, mas foram cerca de 50 apresentações, nas quais eram reunidas oficinas da região que estava sendo visitada. Buscamos fazer visitas bastante regionalizadas, mas o que posso dizer é que foi a “campanha do silêncio”. Não fizemos uma campanha ostensiva, o gasto financeiro foi muito pequeno, porque, simplesmente, nossa campanha foi a consciência dos irmãos, que votaram em um trabalho real, apresentado na prática. Eles viram o nosso trabalho, a nossa índole, a nossa ética administrativa, e votaram baseados nisso, em uma nova Maçonaria, em um novo tempo, no qual o futuro remete aos antigos ditames da Ordem, as antigas regras que estavam deixando de ser seguidas.

AVD: Algumas questões relacionadas ao Poder Legislativo anterior impediram a implementação de certos projetos da campanha de 2022. Esses projetos serão retomados agora, nesta gestão?
GM: Na primeira eleição, tínhamos excelentes projetos para o Poder Legislativo da Glesp, dos quais não conseguimos implementar nenhum, em virtude de quem ocupava o cargo. Agora, na Assembleia Geral de setembro, apresentaremos os projetos para o Legislativo, já temos mais de uma dezena de projetos, muitos deles a respeito da regularização de ritos e questões de frequência, entre outros.

AVD: A realização de eleições digitais estava entre esses projetos que não foram viabilizados. O senhor acredita que neste novo mandato será possível caminhar com essas modernizações?
GM:
Pessoalmente, estudando o assunto, admito que eu também sou contra o voto totalmente digital, on-line, via celular, porque temos toda uma tradição, uma ritualística, quando o voto é feito em loja, como a união dos irmãos, os ágapes, as próprias disputas eleitorais das quase 900 oficinas. Apesar de o fato ocorrido ser notadamente político, também tínhamos um problema interno, pois a nossa Secretaria Geral praticamente teve de digitar 870 nominatas, cerca de 10 mil nomes, manualmente, coisa que em 2023 não ocorreu. Então, a ideia que será apresentada ao Tribunal Eleitoral Maçônico (TEM) é que a parte burocrática seja feita pelas lojas, por um sistema que já está plenamente em uso há dois anos, aprovado por todos, haja vista que o secretário tem a obrigação de fazer a digitalização das nominatas. Depois, ele pode transmitir a nominata e informar o resultado da eleição pelo nosso sistema, e as câmaras eleitorais do TEM analisarão o processo digitalmente. Um trabalho muito mais simplificado que pode ser feito em alguns dias. Para se ter uma ideia, já estamos em agosto, e ainda estão sendo analisados processos eleitorais por causa das dificuldades criadas com as decisões do antigo TEM.

AVD: Recentemente, ocorreu uma Exemplificação do Rito de York feita por irmãos dos Estados Unidos. Qual a importância dessa iniciativa para a Glesp, haja vista que a organização do evento começou em dezembro de 2024, ainda na sua gestão?
GM: A Exemplificação do Rito de York foi realizada por irmãos da Grande Loja de Massachusetts, então, podemos considerá-los como pais do rito, devido à idade daquela Potência americana. Foi uma ideia do Grande Secretário de Relações Exteriores, André Micheloto, junto com o irmão José Augusto Camanhani, da Comissão de Liturgia da Glesp para o Rito de York. Foi muito importante a iniciativa porque abriu nossos horizontes para entendermos como é feita, e como deve ser feita, uma sessão, na qual, a principal característica que observamos é que todos os irmãos sabiam o ritual de cor, pelo fato de a teatralidade da cerimônia levar à necessidade de ter as mãos livres. Eles realizaram a sessão de uma maneira extremamente espontânea, com uma representação teatral muito perfeita. Então, foi uma novidade para nós, pois sempre ouvíamos que isso era um mito, que seria difícil alguém celebrar uma cerimônia daquela complexidade de cor, mas vimos que é possível. E serviu para nós como um anseio daquilo que ainda podemos nos desenvolver. Estamos montando na Glesp a Comissão do Ritual de Emulação, para que seja realizada esse tipo de cerimônia de Exemplificação nas diversas lojas da jurisdição. Portanto, hoje estamos trabalhando para que aperfeiçoemos o Ritual de Emulação, junto com o Rito de York também. A presença de irmãos brasileiros na comitiva de Massachusetts nos ajudou bastante. Temos irmãos brasileiros na administração dos DeMolays nos Estados Unidos, também na Grande Loja de Nova York, na Grande Loja da Flórida, então isso facilita muito a questão da comunicação, na troca de ideias. Foram momentos extremamente agradáveis, prazerosos e de muito conhecimento para nós, brasileiros.

O caderno de diretrizes e desdobramentos, elaborado pelo irmão Ulisses Brilhante, vislumbra os próximos 20 anos da Glesp

AVD: A comitiva da Grande Loja de Massachusetts participou da Assembleia Geral, no dia 21 junho, também do Jantar Comemorativo aos 98 anos da Glesp. Isso representa uma aproximação mais intensa com a Maçonaria dos Estados Unidos, como planejado e já mencionado pelo senhor em outras oportunidades?
GM: Como foi planejado logo quando assumimos, em 2022, um dos nossos projetos era justamente uma maior aproximação com os Estados Unidos. Trabalhamos muito forte nesse sentido, nossa presença na Conferência das Grandes Lojas Norte-americanas é muito grande, fizemos palestras nesse evento, queremos trazer agora os Graus Crípticos para a Glesp, já temos um abaixo-assinado redigido, então é uma política nossa de maior presença no mundo maçônico e no mundo em geral. A origem da Maçonaria Especulativa, digamos assim, não ocorreu só na Inglaterra, mas simultaneamente nos Estados Unidos. Os nossos Graus Filosóficos, por exemplo, são de origem norte-americana.

AVD: Novo mandato, novos projetos. Quais as próximas ações no início da atual administração?
GM: Os principais projetos são relacionados ao Poder Legislativo, pois precisamos regulamentar muitas questões, problemas quase que genéticos da Glesp, eu diria, que são situações nas quais a Constituição e o Regulamento Geral não são respeitados, mas que não afetam o trabalho. Um desses problemas crônicos que posso citar diz respeito à realização semanal de sessões maçônicas, que está na nossa Constituição, mas quase uma centena de lojas não cumprem esse regulamento e não têm como mudar isso, pois são dezenas de anos trabalhando de maneira diferente. Seguindo um padrão do mundo maçônico, que ocorre em alguns lugares, como nos Estados Unidos, por exemplo, onde a necessidade de uma reunião semanal não é exigida, iremos apresentar na Assembleia Geral essa questão, para que se decida democraticamente. Isso será exposto aos irmãos, debatido em lojas e depois votado em Assembleia, onde a maioria decide. Também temos a questão de diversos ritos não constarem como ritos oficiais da Glesp, como o Moderno, o Adonhiramita e, agora, o Rito Brasileiro, que está chegando com muita força. Então, já preparamos a regularização desses ritos que estão sendo praticados e uma normativa para a apresentação de novos ritos, que também serão votadas em Assembleia. Ainda sobre novos projetos, fizemos um estudo para saber porque a Glesp tem deixado de abrir pequenas lojas em cidades do interior onde ainda não está presente. Descobrimos esse fato e iremos apresentar na Assembleia Geral uma solução para um crescimento vertiginoso da instituição, será um novo impulso que iremos dar. Agora, com o Grão-Mestre Adjunto Cesar Augusto Garcia, o Poder Legislativo vai ter uma nova roupagem, acredito que haverá uma atuação como nunca ocorreu, e isso pode até ser um grande presente desta administração para a Glesp, retomando a visão que tivemos há três anos.

AVD: A Comissão de Ritualística também é responsável na regularização da prática dos ritos, então ela será ampliada também?
GM: Sim, temos na Comissão de Ritualística os representantes de cada rito, como os irmãos Gerson Claudio Crott, do Ritual de Emulação; e José Augusto Camanhani, do Rito de York, por exemplo. Nessa normativa que mencionei sobre novos ritos, está colocada a necessidade de todo o rito ter um representante na Comissão de Ritualística, então, sim, ela será ampliada, certamente. Tudo sob a supervisão de um presidente da Comissão de Liturgia, e deverão ser respeitadas as devidas ritualísticas. Como temos uma Constituição, as normas primordiais, como o civismo, representado pela Bandeira Nacional, deverão ser seguidas, mas muitas situações, como o posicionamento dos oficiais em loja e a recepção do Grão-Mestre, variam de rito para rito, então é preciso fazer adaptações.

AVD: Nesse mandato que se inicia, o senhor irá promover alguma renovação dos ocupantes de cargos da administração?
GM: Nós não seguimos um loteamento nem um leilão de cargos. Todos os irmãos que ocupam cargos na nossa administração o fazem por mérito. São irmãos muitas vezes desconhecidos, mas que tive acesso a eles durante a campanha e resolvi convidá-los para participar da nossa administração, a qual, aliás, não tem ninguém meramente para “puxar votos” com fins eleitoreiros. Nós apresentamos um trabalho, é uma Maçonaria mais séria, então, fazemos o que temos de fazer para o bem da instituição. Além das Grandes Secretarias, também ocorrerão mudanças nas delegacias da jurisdição, já que aumentou o número de regionais. Isso foi necessário porque a concepção anterior levava em consideração uma Glesp tinha cerca de 670 lojas. Nesse período, mais 200 lojas passaram a integrar a jurisdição da Potência, então foi necessário aumentar os Delegados Regionais, mas mesmo assim temos regiões com mais de 30 lojas. Foi necessário o aumento também por causa da distância, no passado a locomoção era mais fácil e até mais barata. E a densidade demográfica maçônica foi outro motivo.

AVD: O que os irmãos da jurisdição podem esperar desse novo mandato?
GM: Hoje, o mote dessa atual administração é um caderno de diretrizes e desdobramentos, elaborado pelo irmão Ulisses Brilhante, que representa a evolução da Maçonaria, sem perder o seu cunho ritualístico, com um trabalho que precisamos desenvolver para a própria subsistência da instituição. Então, como eu disse, é uma modernização da Maçonaria, sem abandonar a ritualística e a tradição da Ordem. O trabalho chegou a mais de 300 páginas, mas fizemos uma edição, deixando-o com 180 páginas. Primeiramente, o trabalho está sendo apresentado para os Grandes Secretários, em seguida, passará aos Delegados Regionais, e, depois, a todos os irmãos. Os próximos 20 anos da Maçonaria estão vislumbrados nessa obra, inclusive com a utilização da Inteligência Artificial (IA). A Glesp já está fazendo estudos para a implementação da IA, exclusiva da instituição, e é necessário isso porque o futuro nos faz valorizar o passado. Hoje, diante de toda a tecnologia, os irmãos mais novos, quando veem uma ata escrita à mão, ficam surpresos e maravilhados, por exemplo.


Editorial do Sereníssimo Grão-Mestre – Julho/Agosto 2025

Meus queridos irmãos, Quero agradecer a todas as lojas que ouviram a convocação para darmos uma atenção especial à Semana da Pátria. Tivemos muitos eventos em todo o estado de São Paulo, nos quais o civismo e o patriotismo marcaram as comemorações ao Dia 7 de setembro, à Independência do Brasil. Entre esses eventos, ocorreu a troca da Bandeira Nacional que fica hasteada no Parque....

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